terça-feira, 21 de julho de 2009

A felicidade barata

"Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro."

Machado de Assis em Dom Casmurro



Nunca gostamos tanto do Sol quanto em um dia nublado; da mesma maneira, acho que precisamos sentir saudades das pessoas pra que elas continuem sempre significando o mesmo tanto dentro de nós.
Ter alguém sempre lá parece muito fofo na teoria, mas na prática, é a receita para catástrofe - pelo menos pra mim. Não é que haja prazer nessa dor da saudade, mas é que só quem usou por horas um sapato apertado pode saber o que é o alívio de descalçá-los. Tá, você tem a opção de não usar um sapato apertado; mas sinto muito, jamais sentirá o prazer de tirá-lo - e está aí algo que eu acho que compensa.
Há quem diga que tudo isso não passa de frieza, de uma espécie de proteção que a gente adquire pra não se machucar. Esses, afinal, preferem sentir o prazer de se apaixonar loucamente ao custo de se desapaixonar desastrosamente a viver o insosso equilíbrio daqueles que caminham a passos mais cuidadosos. Sim, talvez só esses saibam que nirvana único é esse de se apaixonar por inteiro, se entregar ao sabor do sentimento, ainda que só por alguns dias.
No fundo, acho que todas as relações humanas são meio que jogos. Compete a cada um escolher a estratégia e o momento de agir, mas estamos todos sujeitos às mesmas regras.

João Rodrigues

sábado, 27 de junho de 2009

Católico Apostólico Uspiano


A Universidade, sobretudo no que concerne às ciências humanas, leva o conhecimento tão a ferro e fogo que eu ousaria chamar a ciência que produzem de uma nova religião. Digo isso sem medo por não deixar muito a desejar ao cristianismo da Idade Média, que não obstante tratar os fatos sob a ótica de uma verdade absoluta e dogmática, ainda perseguia aqueles que ousassem cogitar algum questionamento a isso.
E vejam hoje o magnífico Templo do Saber erigido às margens do Pinheiros, que tanto prima por suas idéias de democracia e respeito à pluralidade de idéias! Já não se sabe mais quem é cristão e quem é pagão dentro dos muros desse castelo, de sorte que tudo o que resta é condernarem-se à fogueira uns aos outros. Claro, respeitando-se mutuamente os diversos pontos de vista - desde que sejam iguais.
Lá do alto da torre de marfim, o Senhorio observa desdenhoso tudo aquilo que não lhe diz respeito, enquanto as massas inflamadas expressam seus anseios com toda a mesma delicadeza de um clérigo que atira a feiticeira ao fogo da redenção. Se houver algum resquício de insjustos e insjutiçados nesse amálgama, acho que isso só saberemos um dia, talvez num livro de História dita "pós-contemporânea", provavelmente intitulado "Século XXI: A neo-caça às bruxas".

João Rodrigues

sábado, 30 de maio de 2009

Às boas e às velhas novas


A vida andava cada vez mais triste desde que eu esquecera o que era viver sem novidades. Ter coisas legais é OK, mas e quanto às novas coisas legais? Será que dá pra viver só com o que eu já tinha?
Pois é. Eu lembro que na infância eu descrevia a vida como uma mochila: a gente só segue em frente se ela estiver no peso certo, e isso só ocorre se a gente der espaço pras coisas novas tirando as coisas velhas; o problema é que muitas dessas velharias eram simplesmente tudo de que eu precisava, e muitas dessas novidades não faziam mais do que me entreter - e nem só de joie de vivre vive o homem.
Daí o cara vira irremediavelmente nostálgico, desenvolve essa espécie de fobia de deixar pra trás as coisas e se dar conta de que não adianta simplesmente voltar no caminho pra buscar  aquilo que se descobriu que era imprescindível. Não tem sido difícil cruzar com gente rindo da minha mochilinha toda atulhada e rasgada desde então. Mas eu juro por esse céu como eu já vi quem não tivesse nem água no cantil nem dez passos depois.

João Rodrigues

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Eu sou mais indie que você

Acho bonitinha e saudável essa facilidade com que os adolescentes brincam com os rótulos; nem sei mais quais são os grupelhos dessa garotada de hoje, e tenho quase certeza de que passaria um belo carão citando aqui os do "meu tempo". Pouco importam os nomes, o importante mesmo é que essa fase de identificação favorece muitas trocas e facilita um pouco o questionamento de quem eu sou e qual o meu lugar.
Mas, como tudo na vida, só vale a pena se tiver começo, meio e fim. Na superfície de tudo, a consequência mais imediata disso é a segregação, algo que definitivamente não é bacana de se carregar para a vida adulta. E eis que você anda pela São Paulo do famigerado 3º milênio e encontra um bom tanto de indivíduos nos seus 20 e poucos - ou mais - que só toleram estar cercados por aqueles de mesmo "estilo" (leia-se roupas e música, no máximo, porque ideologia é algo que já morreu faz tempo). Soa como se ainda nos detivéssemos na superfície, esquecendo do básico do básico do básico das relações humanas: conhecer a pessoa, e não essa película efêmera que a recobre. Ou será que "conhecer" já virou sinônimo de "imitar"?
Nesse cotidiano já conturbado de superação do outro em que vivemos cada vez mais, chegar na fase adulta com essa mentalidade adolescente pode ser uma grande vantagem em termos de competição; mas acho que, no que toca as relações Humanas, a despeito da abrangência do termo, não damos conta de conhecer um ao outro porquanto não nos detemos no acontecimento dessa pessoa para si, diga-se, o fenômeno humano que representam as trocas, e não a simples passagem, sob o risco de nos vermos cercados de estilo, mas não de pessoas...

João Rodrigues

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O amor que acredito


O amor que acredito:
Não prende,
não pede em troca,
não impõe condições,
não segue regras,
não tem nome.

O amor que acredito:
Liberta,
é gratuito,
é incondicional,
é espontâneo,
é apenas o que é.

Se o amor não for assim, será um mero remédio para a sua carência, um alimento para o seu ego, um apoio para a sua insegurança, mas jamais será amor.


Rafael Beckel

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Brincando

Mesmo tremendo de frio, há uma diferença fundamental entre estar próximo ao fogo e encostar nele; na primeira situação, a gente se aquece e se sente confortável; na segunda, dispensável constatar que a gente se queima. Só que mesmo assim, acho que muitas vezes o frio é tanto que a gente não percebe o quanto está tendendo para o outro extremo e, assim, lançando-se automaticamente para outro desconforto.
Mas há infinitos tons de cinza entre o preto e o branco. Por que é tão difícil se deliciar com um deles? É da natureza do ser humano só se equilibrar quando bate nos extremos?
É, o equilíbrio pode ser meio ponderado e sem graça demais às vezes, mas mesmo quem não se dá conta, vive procurando por ele - cada um do seu jeito.

João Rodrigues

quinta-feira, 12 de março de 2009

Meu poema favorito

Soneto de Fidelidade



De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto,

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.



Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor, hei de espalhar meu canto

E rir meu riso, e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.



Assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama



Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.




Vinícius de Moraes