O mesmo espaço espremido e atulhado de todos os dias, que é a visão do espaço público em São Paulo. É estreito, pseudo-ordenado, impositor. É o que há de direito àqueles que ousam tamanha afronta ao Capital. É a sobra daquilo que não é privado, e que dessarte, não é de ninguém.
O gado segue em marcha lenta rumo ao controle da catraca, que contabiliza e numera o que há de mais inumerável: o humano.
O rapaz à frente para bruscamente; com uma reverência quase cortesã, guardadas as proporções disponíveis no pequeno espaço de que dispunha, dá passagem àquela fada esguia, alta, loura, bem trajada. Sorri imperceptivelmente frente à gentileza que, crê, é o exemplo que falta a toda uma sociedade de disputa. A gordinha, logo atrás, fica a ver navios. Espera sua vez de passar logo após o galanteador varão que, ignorando-lhe a existência, segue sua marcha satisfeito pelo dever cumprido.
Um mal-estar difícil de se compreender emana desse pequeno exemplo: quão machista é o cavalheirismo? É de fato um ramo, um sinônimo ou um primo distante da gentileza? Pois eu digo que é descendente direto da mesma brutalidade que se objetivou aniquilar naquele instante.
De cavalheirismo são dignas as mulheres, todas elas, mas algumas mais que as outras. É fruto do encanto bobo pela estética pura e simples, tão passageira quanto o próprio ato. O sopro tépido de um frio sentimento de superioridade, de força maior, e ainda mais, de uma projeção social; homem que é homem faz galanteios, mas nunca pra outro macho. Coisa bem distinta de gentileza, que pressupõe a anulação temporária das prioridades particulares em favor das prioridades coletivas.
E qual a prioridade do cavalheiro? Ora, não pode ser outra senão a da falsa anulação temporária de sua superioridade frente ao sexo frágil, sem contudo fazê-lo em favor do coletivo; é antes em favor de seu próprio ego, afagado pelo sorriso agradecido da co-responsável pelo machismo nosso de cada dia: a mulher que, alheia a tudo isso, penhora seu sorriso por uma pseudo-gentileza.
Mas não, não é culpa dela que isso seja o que de melhor tantos homens têm a lhe oferecer. Ela tem o direito de sorrir. A gordinha, talvez, tenha que esperar sua vez.
domingo, 30 de junho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Meu balanço positivo do(s) movimento(s)
- A tarifa baixou
Sim, esse era meio óbvio. Mas tem desdobramentos. Na prática, pra quem tomava duas modalidades de condução em São Paulo (ônibus + metrô, por exemplo), a redução foi de R$0,35 por viagem (do novo valor de integração de R$5,00 para o antigo, de R$4,65). R$0,70 ao dia, uns R$15,00 ao mês, algo como 2% do atual salário mínimo.
Dispensável discorrer sobre impacto no direito fundamental de ir e vir, né?
Ainda mais bacana, isso também suscitou questionamentos mais profundos: por que esse valor? Que tal "planilha" é essa de que o Haddad fala? Que "gorduras" são essas que poderíamos "avaliar melhor"? Será que conseguiremos botar a mão no vespeiro, como propõe o Young, e chegar mais perto da raiz do problema?
- Menos Pão e Circo
Em plena Copa das Confederações, as pessoas estão falando mais de política do que de futebol. No Brasil!
Sem mais.
- O direito de se manifestar
Sim, porque há anos que não se podia juntar mais de 10 pessoas pacificamente sem que a PM interviesse com violência. Em nome da preservação do direito de ir e vir da população, claro... "nenhum país no mundo para o trânsito pra protestar", já disse hoje Merval Pereira no Jornal das Dez (pena que não achei o link ainda, mas eu vi, eu juro).
Pois nós finalmente ganhamos esse, ahn... privilégio? Já podemos tomar as ruas com a polícia ciente de que só se intervém quando se foge à "ordem" - abrindo-se aqui toda a discussão do que isso queira dizer. Qualquer tentativa de coibir um protesto pacífico sob o argumento de que está "causando transtornos" é autoritária, mas vinha sendo repetida em coro pela nossa inconformada e democrática população que só queria chegar logo em casa. Tava todo mundo conformado. Isso era "distúrbio da ordem pública" e ponto final. Se esses baderneiros trabalhassem, não teriam tempo pra essas frescuras.
Convenhamos: agora, protestar ganhou um novo sentido. Ou o velho, que em algum momento desses 20 anos de PSDB, a gente até desaprendeu...
- A ocupação dos espaços públicos
E que me perdoem os colegas de outras cidades que não veem isso com surpresa, mas para São Paulo, isso é quase uma revolução. O espaço público é visto como o polo irradiador de tudo aquilo que deve ser evitado: degradação, atraso, desrespeito, violência; o paulistano prefere seus shopping centers, condomínios fechados com tudo incluso, carro blindado; até viajando, prefere os resorts, que são mais seguros do que sair por aí, sem saber que tipo de gente vai se encontrar no caminho... vai saber, né?
Pois o espaço público em nossa metrópole não é realmente PÚBLICO. O seria se fosse de todos e para todos, mas age-se no sentido oposto, como se ele fosse de NINGUÉM. É o território neutro onde ocorre apenas o trânsito de pessoas de um local fechado ao outro; quem realmente faz uso dele são os "vagabundos", aqueles que nada de melhor têm a fazer, que não ocupam a cabeça e o tempo com algo produtivo de verdade. É por isso que é sujo e feio: se fosse meu ou de outrém, eu cuidaria, mas não é de ninguém. Pode jogar lixo, pode deixar assim mesmo. Se fosse de alguém, esse alguém cuidava. Como não é de ninguém, tá largado.
É nesse sentido que, ver 65 mil paulistanos - pra usar os números oficiais hilários da Folha - na rua, ao mesmo tempo, percebendo-se donos daquele espaço, é um passo sem precedentes. E que eu espero que perdure. A rua não é dos carros, é das pessoas. Mas os carros são mais fortes, não dialogam, transvestem os motoristas de uma armadura que lhe extrai o que há de mais primitivo e egoísta. Pois é. Só que, enquanto a manada está na rua, o leão que se vire e vá passear em outro lugar!
- O precedente
Falta uma liderança, mas a expectativa da maioria é de que o incêndio continue se alastrando. Causas, é óbvio, não faltam. Se atingirmos a maturidade de nos concentrarmos em uma por vez, as chances estão do nosso lado. Por mais que falte foco, o protesto chama a atenção, incomoda. Envergonha as lideranças, bem no meio do seu banquete de recepção da Copa das Confederações. É a revelação bombástica no meio do baile de gala. Não interessa que ninguém tenha dito exatamente o que está fazendo ali, mas alguma paz no sono dos governantes já está titubeando. Alguém pode envenenar seu champagne a qualquer momento.
Não temos nenhuma garantia - tal como nunca tivemos, a bem dizer. O futuro já era incerto antes dos protestos, só que o adoecimento da esperança era um fato consumado. Agora, nem tanto. Até ele entrou pra pilha disforme de dúvidas que cultivamos nesses dias. Se isso será um ganho, só o tempo dirá. É preciso paciência. Estamos acostumados demais a estímulos, não a acontecimentos. Já nos cansamos o bastante para finalmente nos transformarmos?
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Medianeiras
Quando seremos uma cidade sem cabos?
Quem terão sido os gênios que taparam o rio com edifícios, e o céu, com cabos?
Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir, ou para manter-nos afastados, cada um no seu lugar?
A telefonia celular invadiu o mundo com sua promessa de estarmos conectados sempre. Mensagens de texto: uma nova linguagem adaptada para dez teclas, que reduz uma das mais belas línguas a um primitivo, limitado e gutural vocabulário.
Bem-vindo à era das relações virtuais.
Fala de Mariana no filme Medianeiras (2011),
de Gustavo Taretto
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
"Não precisa morrer pra ver Deus"
É preciso, então, morrer pra ver Deus? O Criolo acha que não, e eu tentei entender por quê.
"Existem apenas duas maneiras de ver a vida: uma é pensar que não existem milagres, e a outra é que tudo é um milagre."
Albert Einstein
Existe um Deus, sei lá, humanóide? Alguém com um corpo e um rosto, mãos e pés? Usa roupas, anda nu? Terá o aspecto masculino que tanto insistiram em lhe atribuir, ou será feminino? Neutro, indizível? Ele existe?
Ou "Ele está dentro de nós"?
Ou será cada folha, cada flor e cada bicho, cada molécula e cada átomo de cada um deles? A luz, o som, a direção e a velocidade do vento? Será que não são eles, diante de mim o tempo todo, o próprio Deus? Não, não uma mensagem ou uma representação, mas O PRÓPRIO DEUS?
Não estariam todos enganados ao esperar pelo momento de se regenerar? De ver e conversar com alguém que está aqui o tempo todo?
Acho que não custa tentar ver tudo por esse prisma. O máximo que pode ocorrer é se dar conta de que tudo o que é, e que existe por uma razão, é mesmo mais do que explicável. É tudo um enorme milagre.
Mas tudo isso sem se deixar enganar pela beleza. Não são as grandes paisagens a maior prova de que ele existe. As orquídeas são belas, mas são as batatas e as couves que nos alimentam. São elas, também, um não menos importante milagre.
João Rodrigues
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
A droga lícita
Vamos direto ao cerne da questão: tô vendo uma porção de gente dando a maior lição de moral usando os "ensinamentos" do Tropa de Elite. Coisinhas do tipo "é você quem financia essa merda" e coisa que o valha. Então vamos discutir um pouco sobre as ideias dessa esplendorosa produção Globo Filmes e tentar de verdade entender algumas coisas.
- Por que é o usuário quem "financia essa porra"?
Porque vai até a favela comprar.
-E, hmmm... por que ele vai até a favela comprar?
Porque é usuário de uma droga ilícita.
-E... ué, mas por que é ilícita?
Porque possui efeitos morais e psíquicos capazes de alterar o comportamento de uma pessoa.
Pesquisando minuciosamente ao longo de vários segundos no Google, você pode constatar que há uma droga com essas mesmas características, mas perfeitamente legal; literalmente legal, aliás, porque eu tô pra ver um album de fotos por aí que não tenha pelo menos uma fotinha da pessoa toda orgulhosa com uma latinha de cerveja ou uma garrafa de vodka na mão. E alguém já deu uma folheadinha de nada em algum livro de história pra tentar entender por que raios o álcool é lícito e a maconha, ilícita?
-Você já ouviu falar em morte por excesso de canabis? E de álcool?
-Você já ouviu falar em brigas que começaram por causa da maconha? E por causa do álcool?
-Você já ouviu falar em famílias destruídas por causa da maconha? E por causa do álcool?
No final das contas, não são duas drogas, não são as duas maléficas, não têm as duas efeitos psíquicos capazes de levar a pessoa a fazer besteira? Realmente é tão diferente assim encher a cara no final de semana e fumar um baseado?
E se o álcool fosse ilícito, como já tentaram fazer várias vezes ao longo da história, você se conformaria em deixar de consumir? Só pra lembrar, ele já era proibido para você antes de completar 18 anos... mas você nunca deu seu jeitinho de conseguir?
Bom, a história é longa, e se estiver com paciência, segue aqui uma sugestãozinha:
http://www.downgratis.com/videos/historia-da-maconha/
Quem me conhece, sabe perfeitamente que não sou usuário - pelo simples fato de já ser naturalmente bem tranquilo -, então esse post serve para dar minha contribuição singela contra dois dos piores males dessa nossa sociedade: a desinformação e a hipocrisia, o caminho natural de quem só lê a página da frente do jornal ou se conforma com as "críticas" Globo Marcas.
João Rodrigues
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Cinco de maio de dois mil e onze
Estava tentanto juntar tempo e material para, depois de tanto tempo, publicar aqui mais um texto pessimista falando sobre o caos do mundo. Aí, nesse 05 de maio, surgiu uma notícia que mudou meu dia; pelo menos por enquanto, mudou minha perspectiva também.
Cinco de maio de dois mil e onze (escrito do jeito dos convites de casamento mesmo) vai entrar pra história, pelo menos para a minha, como o dia em que o Brasil deu um passo incomensurável nos direitos humanos e no laicismo de seu Estado, aprovando a união civil entre homossexuais. Sim, com tantos problemas tão urgentes no país, foram resolver solucionar justo esse - e eu mesmo concordo que não era dos mais eminentes a se analisar - mas bem, era um problema, e alguém precisava ir lá resolver.
E todo mundo sabe como são as soluções de problema no Brasil: alguém lança uma propaganda faraônica prometendo a solução para tudo em X anos, e depois de X+200 anos, o problema ainda está lá, só que mais bem maquiadinho. Aí eu esperava o mesmo para essa questão da união civil, que era algo que, queeeeeeem sabe, lá pra 2100 alguém ousaria começar a discutir. Mas resolveram acertar esse erro monstruoso da nossa constituição no dia cinco de maio de dois mil e onze.
Valendo desde essa segunda-feira, o homossexual deixa de ser uma sub-categoria da sociedade, uma minoria que só pode recorrer a seus direitos através de liminares e interpretações de leis e artigos. Dessa vez está lá, preto no branco, dizendo que tem que ser tudo igual pra todo mundo.
Num contexto em que se briga por cada vez mais facilidades pro divórcio, novos cidadãos legalmente igualados chegaram pra levar um pouco mais de amor; e que ninguém duvide, era disso mesmo que o mundo precisava.
Posso estar enganado, mas deu um pouco mais de confiança no futuro não tão distante desse "país do futuro".
Meu post pessimista fica pra depois.
João Rodrigues
domingo, 9 de janeiro de 2011
Degeneration
A "nova" geração Y só quer saber de novidades. É caracterizada pela falta de fidelidade em relação às coisas e às pessoas (quase como se estivessem no mesmo nível). E essa ausência de fidelidade ainda não é a falta de "amor", não, mas a falta de novidades desse amor. É preciso que a coisa (ou a pessoa) ofereça cada vez mais, cada vez melhor, sem repetição. O tempo todo é preciso haver estímulos, excitações, surpresas; sem eles, ainda que haja "amor", a geração Y simplesmente enjoa.
Falta de fidelidade entendida aqui como falta de desejo de continuação, de degustação plena daquilo que nos estimula. A quantidade de informação e de possibilidades é tão absurda que chegamos a nos sentir aflitos em parar para vivenciar certas coisas em detrimento de outras. Aliás, já não se vivenciam mais as coisas, porque elas simplesmente não acontecem: elas apenas passam por nós.
E aí eu me pergunto: quão perto da sociedade do Admirável Mundo Novo não estaremos nós? Huxley descreve uma sociedade promíscua e sem família (todos nascem de laboratório), em que não podemos nos apegar às pessoas, simplesmente às coisas; uma sociedade em que a morte dos amigos mais presentes é festejada, e a menor insatisfação é combatida com uma droga - ninguém é obrigado a passar por dor ou privação alguma. Quantas metáforas temos aí da sociedade que vivemos hoje?
Exagero? Bom, na verdade, não tenho porque crer nisso. Afinal, essa geração Y é a nossa, que já estamos ficando para trás. Os adolescentes da segunda década do século XXI já são parte da geração Z. O que será que podemos esperar daqui para frente?
João Rodrigues
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