terça-feira, 12 de maio de 2015

O Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,

Que acompanha, indolente parceiro de viagem,

O navio a singrar por glaucos patamares.


Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,

O monarca do azul, canhestro e envergonhado,

Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,

As asas em que fulge um branco imaculado.


Antes tão belo, como é feio na desgraça

Esse viajante agora flácido e acanhado!

Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,

Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!


O Poeta se compara ao príncipe da altura

Que habita os vendavais e ri da seta no ar;

Exilado no chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de voar.


Charles Baudelaire, "As flores do mal", 1857. Tradução de Ivan Junqueira 



L'Albatros

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,

Qui suivent, indolents compagnons de voyage,

Le navire glissant sur les gouffres amers.


À peine les ont-ils déposés sur les planches,

Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,

Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches

Comme des avirons traîner à côté d'eux.


Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule !

Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid !

L'un agace son bec avec un brûle-gueule,

L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait !


Le Poète est semblable au prince des nuées

Qui hante la tempête et se rit de l'archer ;

Exilé sur le sol au milieu des huées,

Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sobre o medo, o desconhecido, e ambos


   As superstições são as regras pelas quais um grupo humano tenta criar a ilusão da previsão em um meio ambiente incerto. As regras são efetivas no controle da ansiedade; e as inúmeras regras deixam de pesar na consciência uma vez transformadas em hábito. Mesmo quando a situação real é horrível e ameaçadora, as pessoas com o tempo se adaptam e a ignoram. Além disso, há um traço perverso na natureza humana que aprecia a crueldade e o grotesco se não lhe oferecem um perigo imediato. O povo afluía às execuções públicas e fazia pique-nique à sombra do patíbulo. A vida durante os séculos XIV a XVI oferecia uma profusão de espetáculos de sofrimento e dor. (..)
   É um erro pensar que os seres humanos sempre procuram estabilidade e ordem. Qualquer um que tenha experiência sabe que a ordem é transitória. Completamente separada dos acidentes cotidianos e do peso das forças externas, sobre as quais uma pessoa tem pouco controle, a própria vida é crescimento e deterioração: é mudança, senão não é vida. Porque a mudança ocorre e é inevitável nos tornarmos ansiosos. 
   A ansiedade nos leva a procurar segurança, ou, ao contrário, aventura - ou seja, nos tornamos curiosos. O estudo do medo, por conseguinte, não está limitado ao estudo do retraimento e entrincheiramento; pelo menos implicitamente, ele também procura compreender o crescimento, a coragem e a aventura.

"Paisagens do Medo", de Yi-Fu Tuan, p. 17-18
Imagem: Capa do livro

quarta-feira, 24 de julho de 2013

$14,99


      Meu nome é Octave e minhas roupas são da APC. Eu sou publicitário: ahn, sim, eu poluo o universo. Eu sou o cara que te vende merda. Que faz você sonhar com essas coisas que você nunca vai ter. Céu sempre azul, meninas que nunca estão feias, felicidade perfeita, retocada no Photoshop. Imagens tratadas, música ao vento. Quando, à custa das suas economias, você conseguir pagar o carro dos seus sonhos, esse que eu fotografei em minha última campanha, eu já o terei tornado ultrapassado. Eu estou três Vogues à frente, e sempre faço com que você se sinta frustrado. O Glamour é o país onde nunca se chega. Eu te drogo com a novidade, e o futuro com a novidade, de modo que ele nunca fique novo. Há sempre uma nova novidade para envelhecer a anterior. Fazer você babar: esse é o meu sacerdócio. Na minha profissão, ninguém quer a sua felicidade, porque as pessoas felizes não consomem.

      Seu sofrimento dopa o comércio. No nosso jargão, nós o batizamos de "decepção pós-compra". Você precisa urgentemente de um produto, mas uma vez que você o possui, você precisa de um outro. O hedonismo não é um humanismo: é fluxo de caixa. O seu lema? "Gasto, logo existo." Mas para criar necessidades, é preciso atiçar o ciúme, a dor, a insatisfação: essas são minhas munições. E o meu destino é você.

Trecho de 99 Francs, Frédéric Beigbeder (tradução livre)

domingo, 30 de junho de 2013

Estação Luz, 18h (ou "A fada e a gordinha")

O mesmo espaço espremido e atulhado de todos os dias, que é a visão do espaço público em São Paulo. É estreito, pseudo-ordenado, impositor. É o que há de direito àqueles que ousam tamanha afronta ao Capital. É a sobra daquilo que não é privado, e que dessarte, não é de ninguém.
O gado segue em marcha lenta rumo ao controle da catraca, que contabiliza e numera o que há de mais inumerável: o humano.
O rapaz à frente para bruscamente; com uma reverência quase cortesã, guardadas as proporções disponíveis no pequeno espaço de que dispunha, dá passagem àquela fada esguia, alta, loura, bem trajada. Sorri imperceptivelmente frente à gentileza que, crê, é o exemplo que falta a toda uma sociedade de disputa. A gordinha, logo atrás, fica a ver navios. Espera sua vez de passar logo após o galanteador varão que, ignorando-lhe a existência, segue sua marcha satisfeito pelo dever cumprido.
Um mal-estar difícil de se compreender emana desse pequeno exemplo: quão machista é o cavalheirismo? É de fato um ramo, um sinônimo ou um primo distante da gentileza? Pois eu digo que é descendente direto da mesma brutalidade que se objetivou aniquilar naquele instante.
De cavalheirismo são dignas as mulheres, todas elas, mas algumas mais que as outras. É fruto do encanto bobo pela estética pura e simples, tão passageira quanto o próprio ato. O sopro tépido de um frio sentimento de superioridade, de força maior, e ainda mais, de uma projeção social; homem que é homem faz galanteios, mas nunca pra outro macho. Coisa bem distinta de gentileza, que pressupõe a anulação temporária das prioridades particulares em favor das prioridades coletivas.
E qual a prioridade do cavalheiro? Ora, não pode ser outra senão a da falsa anulação temporária de sua superioridade frente ao sexo frágil, sem contudo fazê-lo em favor do coletivo; é antes em favor de seu próprio ego, afagado pelo sorriso agradecido da co-responsável pelo machismo nosso de cada dia: a mulher que, alheia a tudo isso, penhora seu sorriso por uma pseudo-gentileza. 
Mas não, não é culpa dela que isso seja o que de melhor tantos homens têm a lhe oferecer. Ela tem o direito de sorrir. A gordinha, talvez, tenha que esperar sua vez.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Meu balanço positivo do(s) movimento(s)


- A tarifa baixou
Sim, esse era meio óbvio. Mas tem desdobramentos. Na prática, pra quem tomava duas modalidades de condução em São Paulo (ônibus + metrô, por exemplo), a redução foi de R$0,35 por viagem (do novo valor de integração de R$5,00 para o antigo, de R$4,65). R$0,70 ao dia, uns R$15,00 ao mês, algo como 2% do atual salário mínimo.
Dispensável discorrer sobre impacto no direito fundamental de ir e vir, né?
Ainda mais bacana, isso também suscitou questionamentos mais profundos: por que esse valor? Que tal "planilha" é essa de que o Haddad fala? Que "gorduras" são essas que poderíamos "avaliar melhor"? Será que conseguiremos botar a mão no vespeiro, como propõe o Young, e chegar mais perto da raiz do problema?

- Menos Pão e Circo
Em plena Copa das Confederações, as pessoas estão falando mais de política do que de futebol. No Brasil!
Sem mais.

- O direito de se manifestar
Sim, porque há anos que não se podia juntar mais de 10 pessoas pacificamente sem que a PM interviesse com violência. Em nome da preservação do direito de ir e vir da população, claro... "nenhum país no mundo para o trânsito pra protestar", já disse hoje Merval Pereira no Jornal das Dez (pena que não achei o link ainda, mas eu vi, eu juro).
Pois nós finalmente ganhamos esse, ahn... privilégio? Já podemos tomar as ruas com a polícia ciente de que só se intervém quando se foge à "ordem" - abrindo-se aqui toda a discussão do que isso queira dizer. Qualquer tentativa de coibir um protesto pacífico sob o argumento de que está "causando transtornos" é autoritária, mas vinha sendo repetida em coro pela nossa inconformada e democrática população que só queria chegar logo em casa. Tava todo mundo conformado. Isso era "distúrbio da ordem pública" e ponto final. Se esses baderneiros trabalhassem, não teriam tempo pra essas frescuras.
Convenhamos: agora, protestar ganhou um novo sentido. Ou o velho, que em algum momento desses 20 anos de PSDB, a gente até desaprendeu...

- A ocupação dos espaços públicos
E que me perdoem os colegas de outras cidades que não veem isso com surpresa, mas para São Paulo, isso é quase uma revolução. O espaço público é visto como o polo irradiador de tudo aquilo que deve ser evitado: degradação, atraso, desrespeito, violência; o paulistano prefere seus shopping centers, condomínios fechados com tudo incluso, carro blindado; até viajando, prefere os resorts, que são mais seguros do que sair por aí, sem saber que tipo de gente vai se encontrar no caminho... vai saber, né?
Pois o espaço público em nossa metrópole não é realmente PÚBLICO. O seria se fosse de todos e para todos, mas age-se no sentido oposto, como se ele fosse de NINGUÉM. É o território neutro onde ocorre apenas o trânsito de pessoas de um local fechado ao outro; quem realmente faz uso dele são os "vagabundos", aqueles que nada de melhor têm a fazer, que não ocupam a cabeça e o tempo com algo produtivo de verdade. É por isso que é sujo e feio: se fosse meu ou de outrém, eu cuidaria, mas não é de ninguém. Pode jogar lixo, pode deixar assim mesmo. Se fosse de alguém, esse alguém cuidava. Como não é de ninguém, tá largado.
É nesse sentido que, ver 65 mil paulistanos - pra usar os números oficiais hilários da Folha - na rua, ao mesmo tempo,  percebendo-se donos daquele espaço, é um passo sem precedentes. E que eu espero que perdure. A rua não é dos carros, é das pessoas. Mas os carros são mais fortes, não dialogam, transvestem os motoristas de uma armadura que lhe extrai o que há de mais primitivo e egoísta. Pois é. Só que, enquanto a manada está na rua, o leão que se vire e vá passear em outro lugar!

- O precedente
Falta uma liderança, mas a expectativa da maioria é de que o incêndio continue se alastrando. Causas, é óbvio, não faltam. Se atingirmos a maturidade de nos concentrarmos em uma por vez, as chances estão do nosso lado. Por mais que falte foco, o protesto chama a atenção, incomoda. Envergonha as lideranças, bem no meio do seu banquete de recepção da Copa das Confederações. É a revelação bombástica no meio do baile de gala. Não interessa que ninguém tenha dito exatamente o que está fazendo ali, mas alguma paz no sono dos governantes já está titubeando. Alguém pode envenenar seu champagne a qualquer momento.
Não temos nenhuma garantia - tal como nunca tivemos, a bem dizer. O futuro já era incerto antes dos protestos, só que o adoecimento da esperança era um fato consumado. Agora, nem tanto. Até ele entrou pra pilha disforme de dúvidas que cultivamos nesses dias. Se isso será um ganho, só o tempo dirá. É preciso paciência. Estamos acostumados demais a estímulos, não a acontecimentos. Já nos cansamos o bastante para finalmente nos transformarmos?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Medianeiras


                                      
Quando seremos uma cidade sem cabos?
Quem terão sido os gênios que taparam o rio com edifícios, e o céu, com cabos?
Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir, ou para manter-nos afastados, cada um no seu lugar?
A telefonia celular invadiu o mundo com sua promessa de estarmos conectados sempre. Mensagens de texto: uma nova linguagem adaptada para dez teclas, que reduz uma das mais belas línguas a um primitivo, limitado e gutural vocabulário.

"O futuro está na fibra ótica", dizem os visionários. Prometem que você vai poder subir a temperatura da sua casa do seu local de trabalho. Claro! Está previsto que não haja ninguém te esperando com a casa quentinha.
Bem-vindo à era das relações virtuais.




Fala de Mariana no filme Medianeiras (2011),
de Gustavo Taretto

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"Não precisa morrer pra ver Deus"



Acho que a maioria das pessoas, como eu, imagina uma morte que nos conduza a um lugar melhor - não sabemos se para uma inimaginável eternidade, ou se por um novo ciclo. Imagino que nesse momento terei com Deus, e que este, personificado (pois que nos criou "à sua imagem e semelhança"), me desvendaria todos os mistérios que não fui capaz de compreender em vida.

É preciso, então, morrer pra ver Deus? O Criolo acha que não, e eu tentei entender por quê.

"Existem apenas duas maneiras de ver a vida: uma é pensar que não existem milagres, e a outra é que tudo é um milagre."
Albert Einstein

Existe um Deus, sei lá, humanóide? Alguém com um corpo e um rosto, mãos e pés? Usa roupas, anda nu? Terá o aspecto masculino que tanto insistiram em lhe atribuir, ou será feminino? Neutro, indizível? Ele existe?

Ou "Ele está dentro de nós"?

Ou será cada folha, cada flor e cada bicho, cada molécula e cada átomo de cada um deles? A luz, o som, a direção e a velocidade do vento? Será que não são eles, diante de mim o tempo todo, o próprio Deus? Não, não uma mensagem ou uma representação, mas O PRÓPRIO DEUS?

Não estariam todos enganados ao esperar pelo momento de se regenerar? De ver e conversar com alguém que está aqui o tempo todo?

Acho que não custa tentar ver tudo por esse prisma. O máximo que pode ocorrer é se dar conta de que tudo o que é, e que existe por uma razão, é mesmo mais do que explicável. É tudo um enorme milagre.

Mas tudo isso sem se deixar enganar pela beleza. Não são as grandes paisagens a maior prova de que ele existe. As orquídeas são belas, mas são as batatas e as couves que nos alimentam. São elas, também, um não menos importante milagre.


João Rodrigues



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A droga lícita



Vamos direto ao cerne da questão: tô vendo uma porção de gente dando a maior lição de moral usando os "ensinamentos" do Tropa de Elite. Coisinhas do tipo "é você quem financia essa merda" e coisa que o valha. Então vamos discutir um pouco sobre as ideias dessa esplendorosa produção Globo Filmes e tentar de verdade entender algumas coisas.


- Por que é o usuário quem "financia essa porra"? 
Porque vai até a favela comprar. 


-E, hmmm... por que ele vai até a favela comprar? 
Porque é usuário de uma droga ilícita. 


-E... ué, mas por que é ilícita? 
Porque possui efeitos morais e psíquicos capazes de alterar o comportamento de uma pessoa. 


Pesquisando minuciosamente ao longo de vários segundos no Google, você pode constatar que há uma droga com essas mesmas características, mas perfeitamente legal; literalmente legal, aliás, porque eu tô pra ver um album de fotos por aí que não tenha pelo menos uma fotinha da pessoa toda orgulhosa com uma latinha de cerveja ou uma garrafa de vodka na mão. E alguém já deu uma folheadinha de nada em algum livro de história pra tentar entender por que raios o álcool é lícito e a maconha, ilícita?


-Você já ouviu falar em morte por excesso de canabis? E de álcool?
-Você já ouviu falar em brigas que começaram por causa da maconha? E por causa do álcool?
-Você já ouviu falar em famílias destruídas por causa da maconha? E por causa do álcool?


No final das contas, não são duas drogas, não são as duas maléficas, não têm as duas efeitos psíquicos capazes de levar a pessoa a fazer besteira? Realmente é tão diferente assim encher a cara no final de semana e fumar um baseado?


E se o álcool fosse ilícito, como já tentaram fazer várias vezes ao longo da história, você se conformaria em deixar de consumir? Só pra lembrar, ele já era proibido para você antes de completar 18 anos... mas você nunca deu seu jeitinho de conseguir?


Bom, a história é longa, e se estiver com paciência, segue aqui uma sugestãozinha:
http://www.downgratis.com/videos/historia-da-maconha/


Quem me conhece, sabe perfeitamente que não sou usuário - pelo simples fato de já ser naturalmente bem tranquilo -, então esse post serve para dar minha contribuição singela contra dois dos piores males dessa nossa sociedade: a desinformação e a hipocrisia, o caminho natural de quem só lê a página da frente do jornal ou se conforma com as "críticas" Globo Marcas.


João Rodrigues

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cinco de maio de dois mil e onze

Estava tentanto juntar tempo e material para, depois de tanto tempo, publicar aqui mais um texto pessimista falando sobre o caos do mundo. Aí, nesse 05 de maio, surgiu uma notícia que mudou meu dia; pelo menos por enquanto, mudou minha perspectiva também.
Cinco de maio de dois mil e onze (escrito do jeito dos convites de casamento mesmo) vai entrar pra história, pelo menos para a minha, como o dia em que o Brasil deu um passo incomensurável nos direitos humanos e no laicismo de seu Estado, aprovando a união civil entre homossexuais. Sim, com tantos problemas tão urgentes no país, foram resolver solucionar justo esse - e eu mesmo concordo que não era dos mais eminentes a se analisar - mas bem, era um problema, e alguém precisava ir lá resolver.
E todo mundo sabe como são as soluções de problema no Brasil: alguém lança uma propaganda faraônica prometendo a solução para tudo em X anos, e depois de X+200 anos, o problema ainda está lá, só que mais bem maquiadinho. Aí eu esperava o mesmo para essa questão da união civil, que era algo que, queeeeeeem sabe, lá pra 2100 alguém ousaria começar a discutir. Mas resolveram acertar esse erro monstruoso da nossa constituição no dia cinco de maio de dois mil e onze.
Valendo desde essa segunda-feira, o homossexual deixa de ser uma sub-categoria da sociedade, uma minoria que só pode recorrer a seus direitos através de liminares e interpretações de leis e artigos. Dessa vez está lá, preto no branco, dizendo que tem que ser tudo igual pra todo mundo.
Num contexto em que se briga por cada vez mais facilidades pro divórcio, novos cidadãos legalmente igualados chegaram pra levar um pouco mais de amor; e que ninguém duvide, era disso mesmo que o mundo precisava.
Posso estar enganado, mas deu um pouco mais de confiança no futuro não tão distante desse "país do futuro". 
Meu post pessimista fica pra depois.



João Rodrigues

domingo, 9 de janeiro de 2011

Degeneration



A "nova" geração Y só quer saber de novidades. É caracterizada pela falta de fidelidade em relação às coisas e às pessoas (quase como se estivessem no mesmo nível). E essa ausência de fidelidade ainda não é a falta de "amor", não, mas a falta de novidades desse amor. É preciso que a coisa (ou a pessoa) ofereça cada vez mais, cada vez melhor, sem repetição. O tempo todo é preciso haver estímulos, excitações, surpresas; sem eles, ainda que haja "amor", a geração Y simplesmente enjoa.
Falta de fidelidade entendida aqui como falta de desejo de continuação, de degustação plena daquilo que nos estimula. A quantidade de informação e de possibilidades é tão absurda que chegamos a nos sentir aflitos em parar para vivenciar certas coisas em detrimento de outras. Aliás, já não se vivenciam mais as coisas, porque elas simplesmente não acontecem: elas apenas passam por nós.
E aí eu me pergunto: quão perto da sociedade do Admirável Mundo Novo não estaremos nós? Huxley descreve uma sociedade promíscua e sem família (todos nascem de laboratório), em que não podemos nos apegar às pessoas, simplesmente às coisas; uma sociedade em que a morte dos amigos mais presentes é festejada, e a menor insatisfação é combatida com uma droga - ninguém é obrigado a passar por dor ou privação alguma. Quantas metáforas temos aí da sociedade que vivemos hoje?
Exagero? Bom, na verdade, não tenho porque crer nisso. Afinal, essa geração Y é a nossa, que já estamos ficando para trás. Os adolescentes da segunda década do século XXI já são parte da geração Z. O que será que podemos esperar daqui para frente?


João Rodrigues

domingo, 2 de janeiro de 2011

A chama que se aprende a ver




Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.



Nelson Mandela

domingo, 7 de novembro de 2010

Água e Palavra



Água cai do olho, cai do céu, na torneira, a boca pinga, pia
Água enche o olho mas não cai quando o coração desagua
Água não existe quando o coração de pedra fala
Medra meu medo, me mata só com palavras


A palavra vem no olho, sai da boca, no ouvido a fala
A palavra enche a boca d'água quando essa palavra cala
Qualquer coisa pode ser palavra, menos a palavra amor
O amor sem palavra


O amor deságua
Água e palavra
O amor deságua
Água e palavra




Neno Miranda

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Só de Sacanagem



Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
" - Não roubarás!"
" - Devolva o lápis do coleguinha!"
" - Esse apontador não é seu, minha filha!"
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
“ - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
”- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
" - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” - Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

Elisa Lucinda

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ouvi dizer

Tem dor que dói tanto...




























...que transforma.










João Rodrigues

sábado, 5 de junho de 2010

O último discurso


            Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
            Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
            O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.  A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
            Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
            Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
            É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
            Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Charles Chaplin (em O Grande Ditador)

sábado, 22 de maio de 2010

La lumière et les yeux ouverts


Que dans ce moment-là, je voudrais être simple. Aussi simple qu'une voyelle, un numéro pair, une couleur primaire, un verre d'eau... alors, peut-être, finallement rien n'aurais plus de sens.

oJõa dsiuRoerg

terça-feira, 27 de abril de 2010

Insight #1


Lembro do dia em que quis brincar com um gatinho arisco na rua e ele fugiu de mim. Meu pai, vendo a cena, me disse que o deixasse, que ele não queria saber de gente.
Dispensável dizer que eu insisti... não é tão fácil assim convencer um fanático da seita "All the world need is love" a parar de distribuir carinho por aí.
- Deixa ele, filho!
- Mas eu quero que ele aprenda a confiar em mim!
- Certo... aí ele aprende a confiar no ser humano, e o que acontece da próxima vez que ele vir um?
- ...






Foi aí que tive o insight #1: às vezes, ser bom com alguém é o pior mal que você pode fazer por ele(a)...




João Rodrigues

domingo, 11 de abril de 2010

Coffee and TV

O inspirador do nome...




Blur - Coffe and TV



http://www.youtube.com/watch?v=GXRVX1AKAew&feature=fvst


Do you feel like a chain store
Practically floored
One of many zeros
Kicked around bored


Your ears are full but you're empty
Holding out your heart
To people who never really
Care how you are


Chorus:
So give me coffee and tv, please hurry
I've seen so much, I'm going blind
and i'm braindead virtually
Socialability is hard enough for me
Take me away from this big bad world
and agree to marry me
So we can start over again


Do you go to the country
It isn't very far
There's people there who will hurt you
'caus of who you are


Your ears are full of their language
there's wisdom there you're sure
Till the words start slurring
And you can't find the door

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A época das flores

Os dedos se reacostumam a tatear a delicadeza das coisas macias; o paladar ainda se engana com o quase exagero de doçura, que outrora fora implorada em tudo. Recobra suas exigências, confia, chama de verdadeiro.


Bem, nada até aqui deixou de sê-lo. É apenas uma questão de se reabituar.


João Rodrigues

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

The elemental is the beggining




Life is slow and sweet. Guess we are the ones who pass through it so fast.
For we shall know somethings are not up to us to finish, but certainly they need us - as we need them - to go on.


João Rodrigues